Daniely Silva

Faxina digital e a importância do apagar

Retrato em plano fechado de moça sorridente Daniely Silva -
Tempo de leitura: 4 minutos. Crônicas #tecnologia

Gestão de arquivos sempre foi uma questão, talvez antes mesmo das grandes bibliotecas de Alexandria e Pergamum. Há meses, postergava a ideia de fazer uma faxina digital. A ideia foi apagar o máximo de fotos possível, ano a ano, para tornar o que for relevante facilmente visualizável. Isso só foi possível agora que tenho um computador decente, porque seria impensável esse trabalho num disco rígido e com pouco poder de processamento. É um trampo hercúleo!

Quando eu já andava pensando no assunto, a BBC lançou a matéria Por que suas fotos dos anos 2000 podem estar perdidas para sempre — e como preservar as atuais. A matéria fala sobre a perca de dados produzidos em massa durante a difusão do digital, após a transição do analógico. Como o armazenamento era difuso (CDs, disquetes, pendrives, cartões de memória não padronizados etc), somado à baixa qualidade de muitos desses dispositivos de armazenamento, muitas lembranças ficaram espalhadas e se perderam. Há um hiato no registro de fotografia pessoal nesse período.

Uma câmera, mesmo que compacta, não está conosco o tempo todo, o que reduz a captura a momentos um pouco mais importantes. Àquela época, também tínhamos bateria e armazenamento limitados, assim como ainda estava gravado em nossa cabeça o limite de 24 ou 36 poses de um filme 35mm padrão.

Nos anos 2010, celular com câmera já não era uma novidade. Mas quando essas fotos passaram a ter uma qualidade boa, parece que tirávamos foto de tudo. Tirar foto é a expressão que melhor se adequa nesse caso, porque era compulsivo — nada de fotografar ou fazer a foto, bem longe disso.

You don’t take a photograph, you make it.” — Ansel Adams.

Um primeiro passo da minha organização dos arquivos digitais já havia feito há tempos. Tudo estava espalhado em pastas como: “Fotos do celular da marca X”, “Fotos do Cartão SD 2” etc. Reorganizei tudo por ano, de 2011 até os mais recentes. Só que a quantidade de fotos por pasta era absurda, principalmente entre 2013 e 2016, quando ganhei um Lumia de minha tia poeta e me empolguei com a câmera boa. Havia fotos dos momentos mais triviais e a mesma cena repetida 8 ou até 12 vezes; muitas das pastas passavam das 2000 e até dos 3000 arquivos.

Com o tempo, parece que aprendemos a não tirar foto de tudo. A cada ano foi ficando mais fácil de fazer a faxina. Num período entre 2018 e 2019 e em parte de 2017 fiquei sem celular, o que facilitou a faxina. Ter me tornado fotógrafa também me ajudou a gerir melhor a fotografia com celular, já que sempre fui muito cuidadosa com os arquivos dos meus trabalhos e projetos fotográficos.

Percorrer os registros de tantos anos da minha vida foi uma viagem no tempo permeada de sensações boas e ruins. Vi muita gente que nem lembrava mais que existia, mas que fez parte da minha vida ao ponto de aparecer em algum registro.

Tive gratas surpresas. Encontrei fotografias nostálgicas, as quais já não me lembrava que existiam. Compartilhei com algumas pessoas que nelas apareciam, entre amigos e parentes. Isso inclui gente que já partiu, como a minha tia poeta: foi bom ver fotos de quando ainda estava corada e saudável.

Ando numa fase da vida em que quero reduzir ao máximo o que carrego comigo. Não é um minimalismo de mercado, mas uma necessidade de ter mais espaço livre — o físico e o digital. Desfiz-me de muitas papeladas velhas que já não tinham mais sentido de existir na minha vida: atividades de escola, cadernos, faturas, notas fiscais… Claro, alguns cadernos mais representativos ficaram, mas se todos estiverem em casa, o que é importante some no meio do excesso. Na cozinha, também passei para frente muitas tigelas, cumbucas e utensílios que não usava, e o mesmo vale para roupas e calçados. Agora o que preciso é desapegar de alguns livros para passá-los adiante, porque na minha estante já não cabe mais nada.

Outra coisa importante foi dedicar um espaço na estante aos livros que estão na fila da leitura. A fila tem que estar visível e disponível, não numa caixa num canto da casa, onde podem ser até esquecidos. Ver a grossura da fila faz pensar duas vezes antes de comprar livros que não sejam estritamente necessários. O hábito de frequentar bibliotecas também tem me ajudado muito a gerir o espaço destinado aos livros na minha casa. Ajuda muito mais que o leitor-eletrônico de uma empresa americana!

Na faxina digital, cheguei a um total de mais de 287.4GB e quase 70 mil arquivos removidos. Isso facilitou não só a localização de lembranças no meio das pastas, mas vai agilizar becapes mais frequentes. Essa faxina é constante, mais coisa vai ser apagada e terei muito cuidado com o que produzo.